A moda corporativa vai muito além da estética. Ela é uma ferramenta estratégica de posicionamento profissional, capaz de influenciar percepções, estabelecer autoridade e construir conexões sem que uma palavra sequer seja dita.
No ambiente de trabalho, cada escolha – das cores ao corte das peças – comunica algo: transmite credibilidade, maturidade e competência ou, pelo contrário, pode sugerir insegurança e despreparo.
Mas e quando essa ferramenta deixa de ser um aliado e se torna um mecanismo de controle?
A série Severance, da Apple TV+, leva essa reflexão ao extremo — transformando o ambiente corporativo em um cenário quase distópico, onde o uniforme não apenas veste, mas aprisiona.
Continue a leitura e descubra como os figurinos da série constroem uma narrativa poderosa sobre a influência da moda no ambiente de trabalho.
Do que se trata a série Severance?
Um escritório impessoal, figurinos sem personalidade e um trabalho “misterioso, mas importante”. Severance não parece ter os ingredientes típicos de um sucesso televisivo, mas rapidamente se tornou um fenômeno.
A série da Apple TV+ acompanha um grupo de funcionários da enigmática Lumon Industries, uma empresa de biotecnologia que “separa” a mente de seus trabalhadores.
Através de um microchip implantado no cérebro, os funcionários têm suas memórias divididas: uma versão de si (os “Innies”) só existe dentro do ambiente de trabalho, enquanto a outra (os “Outies”) vive fora dali, sem saber nada sobre seu emprego.
O conceito já é perturbador por si só, mas é nos detalhes – especialmente nos figurinos – que a série realmente constrói sua atmosfera sufocante e sem identidade.
O que poderia ser apenas um código de vestimenta corporativo se transforma em uma ferramenta narrativa poderosa, transmitindo opressão, falta de individualidade e até mesmo pistas sutis sobre a trama.

Um guarda-roupa sem tempo e sem alma
Sarah Edwards, figurinista da série, enfrentou um desafio interessante: criar roupas que não apenas fossem monótonas, mas que parecessem atemporais.
Diferente do que a moda considera “atemporal” — peças clássicas e bem-feitas —, o objetivo em Severance era algo sem qualquer relação com tempo ou tendência.
Afinal, os funcionários da Lumon vivem presos em um limbo sem janelas, sem calendários, sem internet e sem nenhuma referência ao mundo exterior.
A inspiração para esse “não-estilo” veio de duas fontes principais: o código de vestimenta dos funcionários da IBM nos anos 1960 e os uniformes de grupos religiosos extremistas. Ambos carregam uma estética rígida e impessoal, onde a individualidade é apagada.

A figurinista criou um manual interno para a Lumon: os homens podiam vestir apenas camisas brancas ou azul-claras e ternos escuros em azul-marinho, preto, cinza ou taupe. Já as mulheres podiam usar saias ou vestidos com meia-calça e sapatos de salto baixos e discretos.
O resultado? Um guarda-roupa que não conta nada sobre os personagens — mas, ao mesmo tempo, diz tudo. O uniforme reforça a falta de identidade dos Innies, que não têm controle sobre suas próprias vidas.
Cada peça é escolhida para sufocar qualquer expressão pessoal e reforçar a ideia de que eles não são indivíduos, apenas engrenagens de uma grande máquina corporativa.
O tempo não existe — e os figurinos também não o refletem
Um dos elementos mais fascinantes de Severance é a ausência de qualquer referência temporal.
O criador da série, Ben Stiller, declarou que o universo da Lumon não pertence a nenhum tempo ou lugar específicos. Esse conceito também se reflete nos figurinos.
Embora algumas peças remetam aos anos 60, como golas altas e vestidos retos, há também referências sutis aos anos 90 e 2010.

A estética dos ternos, a largura das gravatas e a paleta de cores fazem com que os trajes pareçam simultaneamente antigos e modernos, contribuindo para a sensação de deslocamento.
Os Innies não têm ideia de como o mundo exterior se veste ou o que está na moda. Mais do que isso, a Lumon não quer que eles saibam.
Edwards e sua equipe removeram manualmente todas as etiquetas, estampas e logotipos das roupas, garantindo que nada do mundo exterior pudesse “contaminar” o ambiente da empresa.
Até mesmo os sensores dos elevadores detectam textos e proíbem qualquer mensagem do lado de fora.
Se as roupas normalmente ajudam a contar a história de um personagem, em Severance, elas fazem o oposto.
O estilo impessoal e repetitivo dos trajes reforça a desumanização dos funcionários, tornando-os meros produtos da corporação.

O Papel do Figurino na Construção dos Personagens
Cada personagem de Severance é cuidadosamente moldado pela forma como se veste, e seus figurinos contam histórias silenciosas sobre suas personalidades e jornadas.
A evolução do vestuário reflete mudanças psicológicas e a relação de cada um com o ambiente opressor da Lumon Industries.
Mark S.: O Funcionário Modelo em Dissonância
Como protagonista, Mark transita entre o conformismo e a busca por respostas. Seu figurino reflete essa dualidade: no escritório, ele veste ternos sóbrios e camisas neutras, enquanto em sua vida fora da Lumon suas roupas são um pouco mais relaxadas, mas ainda sem grandes expressões de personalidade.
O detalhe mais revelador está em suas gravatas, que vão se tornando mais ousadas conforme ele questiona o sistema.

Helly R.: A Rebelião em Silêncio
Rebelde desde o início, Helly desafia a estrutura da Lumon. Seu figurino segue o padrão imposto, de saias e vestidos de corte reto e blusas básicas e lisas, mas suas expressões corporais e atitudes mostram como ela tenta resistir à padronização.
Quando veste um vestido amarelo — uma das poucas variações de cor na série —, é um prenúncio de um evento de ruptura.
O contraste entre sua aparente conformidade e os pequenos detalhes de rebeldia mostram como seu figurino é uma armadura, uma tentativa de se manter firme em um ambiente que tenta apagá-la.

Dylan G.: O Conformismo Descomplicado
Dylan é o mais pragmático dos Innies, inicialmente confortável na rotina da Lumon, mas que depois se torna peça-chave na rebelião.
Seu figurino é o mais alinhado com o dress code da empresa, mas pequenas mudanças, como o ajuste de sua camisa ou a escolha de um tom levemente diferente, marcam sua evolução.
À medida que sua consciência cresce, seus gestos e a forma como carrega sua roupa também se tornam menos rígidos, simbolizando sua transição do conformismo para a autonomia.

Irving B.: O Tradicionalista
O mais formal do grupo, Irving adota um estilo ainda mais conservador do que seus colegas. Seu figurino é o mais monocromático, com ternos que poderiam ter saído de qualquer década entre 1960 e 1990.
Esse anacronismo reflete sua crença cega nas regras da empresa, tornando-o um personagem rigidamente preso à estrutura da Lumon.

Harmony Cobel: A Autoridade Opressiva
Como superior dos protagonistas, Harmony Cobel representa a autoridade absoluta da Lumon. Seu guarda-roupa é estritamente estruturado, com vestidos de cortes impecáveis, saltos clássicos e cores frias.
No entanto, ao transitar entre o mundo corporativo e sua vida fora da Lumon, pequenas mudanças são perceptíveis, sugerindo um lado mais humano por trás da fachada implacável.

Ms. Casey: A Figura Fantasmagórica
Ms. Casey, a misteriosa orientadora de bem-estar, está sempre vestida de vermelho. O uso dessa cor é simbólico: no universo de Severance, o vermelho é a cor do perigo, da subversão e das figuras que representam uma ameaça à estrutura da Lumon.
Seu figurino a destaca como um elemento deslocado no ambiente monocromático da empresa, quase como se fosse um fantasma vagando por um espaço que não lhe pertence. Sua presença evoca desconforto, e sua aparência visual reforça seu papel como um enigma na trama.
O figurino em Severance não é apenas uma questão de estética, mas uma extensão da psicologia de seus personagens.
Cada detalhe, cor e textura comunica o que não é dito explicitamente, tornando as roupas parte fundamental da narrativa e um reflexo silencioso das batalhas internas e externas que definem seus protagonistas.
O significado das cores: azul, verde e o perigo do vermelho
Mesmo com sua estética controlada e sem alma, Severance usa a cor de forma estratégica para guiar a narrativa.
A Lumon é dominada por tons de azul e verde: os carpete são verde-oliva, os divisores de mesa esmeralda, as cadeiras azul-marinho e os teclados cobalto. Os figurinos seguem essa mesma lógica.

Mark S., por exemplo, veste um terno azul-acinzentado com gravatas que variam entre azul e verde. Helly R. combina saias azul-petróleo com suéteres safira. Irving B. adere à monocromia completa.
Tudo isso reforça a monotonia e a sensação de que o ambiente da Lumon é calculado para ser opressivo sem ser visualmente agressivo.

Mas e quando algo foge desse padrão? A mudança de cor se torna um aviso silencioso de que algo importante está prestes a acontecer.
Na primeira temporada, episódio 7, Helly usa um vestido amarelo — uma cor completamente fora da paleta usual da Lumon. Pouco depois, ocorre um dos momentos mais caóticos da série: Dylan ataca seu supervisor, Sr. Milchick, e Helly e Mark iniciam seu plano de fuga.


Já na segunda temporada, episódio 4, os Innies são levados para um retiro corporativo. Ali, eles trocam seus habituais tons frios por agasalhos completamente pretos. O contraste visual prenuncia um episódio repleto de revelações e perigo iminente.

O vermelho como ameaça (spoiler alert!)
Enquanto azul e verde dominam o mundo da Lumon, o vermelho surge como um símbolo de alerta. Em um contexto tradicional, vermelho indica perigo — placas de Pare, saídas de emergência e avisos de risco.
Mas em Severance, o maior perigo para a empresa não vem de incêndios ou desastres naturais, e sim de seus próprios funcionários.
Petey, ex-chefe de Mark e um dos poucos que conseguiu escapar da Lumon, veste um manto vermelho listrado. Sua roupa destaca sua posição como um rebelde, alguém que desafia o sistema e tenta expor a verdade.
Mark também passa por uma sutil mudança de figurino ao longo da série. No início, ele segue rigorosamente o esquema azul-esverdeado da Lumon, mas à medida que seu ceticismo cresce, suas gravatas começam a ganhar tons avermelhados.
Pequenos detalhes como esse ajudam a mostrar sua transformação interna sem precisar de diálogos expositivos.
Por fim, o vermelho tem um papel crucial na trama de Gemma/Sra. Casey, esposa de Mark no mundo exterior. Na primeira temporada, seu “Innie” desaparece misteriosamente após uma sessão de aposentadoria.

Apenas mais tarde descobrimos que ela ainda está viva e sendo usada em experimentos. No episódio 7 da segunda temporada, Gemma aparece em três versões diferentes, sempre vestindo vermelho.

A cor não apenas simboliza sua ameaça à Lumon, mas também sua própria luta para recuperar sua identidade.

O uniforme comunica: o que sua empresa está dizendo?
O figurino de Severance nos lembra do poder da moda corporativa. No mundo real, o que vestimos no ambiente de trabalho também comunica mensagens — sobre profissionalismo, sobre cultura empresarial e até mesmo sobre valores de uma marca.
Mas, ao contrário da Lumon, onde a roupa é usada como ferramenta de opressão, temos a chance de usar a moda corporativa como uma aliada para expressar identidade, pertencimento e histórias autênticas.
Afinal, o uniforme não é apenas um detalhe. Ele é uma ferramenta estratégica de comunicação visual que pode ser usada ao nosso favor — ou contra nós.
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